Este texto é sobre crianças que jogam Pokémon TCG.
Não só crianças que aparecem na loja, sentam na mesa e jogam uma partida. Mas crianças que estão entrando no competitivo, que gostam do jogo de verdade, que começam a entender deck, resultado, derrota, treino, amizade, frustração e tudo que vem junto.
Também é sobre as mães e os pais que acompanham isso de perto. Às vezes levando na loja, às vezes esperando o torneio acabar, às vezes sem entender todas as cartas, mas entendendo que aquilo importa para o filho.
E também é sobre quem já passou por esse caminho.
Um jogador que um dia foi criança no jogo, continuou jogando, virou Master, virou referência em Minas Gerais e, olhando de fora, eu tenho pouca dúvida de que o Pokémon TCG ajudou a formar muito do cara que ele é hoje.
Eu comecei a pensar nisso olhando um pouco para a minha própria história.
Minha mãe sempre me apoiou em tudo que podia. Eu nunca posso dizer que faltou apoio. Mas na minha cidade não tinha uma loja com cenário ativo de Pokémon TCG. Não tinha liga, torneio ou gente se reunindo para jogar toda semana.
Ela gostava que eu jogasse. Ela me via jogando. Mas o Pokémon TCG nunca virou uma coisa nossa.
E eu fico pensando nisso às vezes.
Quando eu era pequeno, eu nunca esqueci dela jogando Mario Kart comigo. Era só uma partida de videogame, mas é uma memória que eu carrego até hoje.
Então imagina se existisse uma loja perto, um campeonato, um lugar para ela me levar, assistir, perguntar sobre o deck, entender por que eu fiquei triste depois de uma derrota ou feliz depois de uma vitória pequena.
Talvez a gente tivesse vivido mais esse lado junto. Talvez não. Não dá para saber.
Mas quando eu vejo hoje uma mãe ou um pai acompanhando o filho em uma liga, eu penso nisso. Porque para quem está de fora pode parecer pouco, mas para uma criança talvez aquilo fique guardado por muito tempo.
E o Pokémon TCG tem várias camadas.
Tem a parte do jogo mesmo: ler carta, fazer conta, pensar, ajustar e tentar de novo.
Isso não é só impressão de quem joga. Um estudo sobre jogos de cartas colecionáveis trata esse tipo de jogo como uma ferramenta de aprendizagem e aponta que eles podem estimular criatividade, cognição e raciocínio lógico, além de ajudar jogadores a organizar conhecimento e desenvolver habilidades que nem sempre são simples de ensinar em sala de aula.[1]
Também existe a parte da aprendizagem pelo jogo. Uma revisão sobre game-based learning na educação infantil encontrou efeitos positivos em áreas como desenvolvimento cognitivo, social, emocional, motivação e engajamento.[2]
Não quer dizer que Pokémon TCG substitui escola, família ou qualquer outra coisa. Mas ajuda a mostrar que jogo também pode ser um espaço onde criança aprende, pratica e se desenvolve.
E tem a parte social, que para mim talvez seja uma das mais fortes.
A criança precisa sentar na frente de alguém. Precisa conversar. Precisa explicar uma jogada. Precisa ouvir. Precisa ganhar sem passar por cima do outro e perder sem largar tudo.
Estudos sobre jogos de tabuleiro e competências emocionais também olham para esse tipo de experiência como um ambiente social e motivador, com potencial para trabalhar interação e emoções durante o jogo.[3]
Mas este artigo não é para transformar Pokémon TCG em tese.
É para ouvir pessoas.
Para escrever este artigo, eu quis ouvir três lados dessa história: as crianças que estão vivendo o jogo agora, as mães que acompanham de perto e alguém que começou pequeno, continuou jogando e hoje virou referência em Minas Gerais.
A ideia é entender o que cada um enxerga no Pokémon TCG: o que faz uma criança querer continuar, o que as mães percebem de fora e o que fica na vida de alguém depois de tantos anos jogando.
A partir daqui, a ideia é deixar eles contarem.
O jogo pelos olhos de Guilherme e Mateus
Antes de ouvir os adultos, eu queria começar pelas crianças.
Porque é fácil um adulto tentar explicar o que o jogo significa para elas. Mais difícil, e mais importante, é deixar que elas mesmas falem.
Conversei com Guilherme, de 10 anos, e Mateus, de 11, duas crianças que já vivem o Pokémon TCG de perto e estão começando a entender o jogo para além das cartas: a vontade de melhorar, a relação com outras pessoas, a derrota, a ajuda de quem sabe mais e o sentimento de fazer parte daquele ambiente.
Para começar, me conta um pouco sobre você: seu nome, sua idade e há quanto tempo você joga Pokémon TCG?
Guilherme:
Eu me chamo Guilherme, tenho 10 anos e comecei a jogar Pokémon faz 3 anos, quando eu tinha 7. Antes disso, eu colecionava as cartas porque eu gostava, e também porque fazia sucesso na escola.

Mateus:
Oi, eu sou o Mateus, tenho 11 anos e jogo Pokémon TCG há dois anos. Eu comecei a jogar em novembro de 2023.

Como o Pokémon TCG entrou na sua vida? Foi por amigo, família, desenho, jogo, loja ou de outro jeito?
Guilherme:
Eu comecei a jogar Pokémon TCG porque, na minha escola, tinha bastante gente que colecionava cartas. Aí eu também comecei a colecionar. Depois, me deu vontade de jogar porque minha mãe viu que tinha um brasileiro que ficou em primeiro lugar no Japão.
Mateus:
Eu comecei pelo Yu-Gi-Oh! Quando ainda jogava xadrez, fui numa loja para entrar em um torneio. Só que, nessa loja, descobri que tinha um jogo sobre um desenho que eu gostava.
Depois, como as pessoas da minha escola não jogavam Yu-Gi-Oh! e todo mundo jogava Pokémon, eu passei para o Pokémon. Foi assim que eu entrei no Pokémon TCG.
Quando você joga Pokémon TCG, o que faz você querer continuar jogando?
Guilherme:
Eu continuo jogando porque acho bem divertido ficar pensando em como jogar e no que posso fazer para melhorar, porque é um jogo de estratégia e raciocínio.
Mateus:
Eu jogo não por obrigação, nem para ganhar torneios ou ficar famoso. Eu jogo apenas por diversão.
Você acha que o Pokémon TCG te ajudou a fazer amigos de um jeito que talvez não aconteceria fora do jogo? Como isso aconteceu?
Guilherme:
Sim, porque eu era bem tímido e consegui enfrentar pessoas novas e fazer amizades ao longo do tempo.
Mateus:
Sim, porque se eu não jogasse Pokémon, eu não conheceria muitas pessoas, como a Isabela, o Guilherme, o Marins e o Álvaro, todos eles são meus amigos de coração.
Sem o Pokémon TCG, eu não teria conhecido eles, porque nunca tinha visto nenhum antes de começar a jogar. A primeira vez que vi foi na UG Cardshop, quando fui testar meu primeiro baralho.
Quando você perde uma partida importante, o que você sente primeiro? Depois que passa um tempo, você consegue pensar no que aprendeu com aquela derrota?
Guilherme:
A primeira coisa que eu penso é em como eu poderia ter feito para ganhar. Depois das partidas, eu aprendo bastante e até pergunto para as pessoas que eu enfrentei como eu poderia melhorar. Quando eu perco, eu fico triste, porque sinto que poderia ter ganhado. Às vezes, eu não fiz a jogada certa porque não sabia o que deveria ter feito naquele momento.
Mateus:
Quando eu perco uma partida importante, no começo eu fico um pouco frustrado comigo mesmo. Mas depois eu vejo onde errei e o que eu poderia ter feito para ganhar a partida.
Por exemplo, teve uma partida que eu joguei há muito tempo contra o Guilherme. Ele estava jogando com baralho de , e eu estava com um baralho de . Eu fiz uma jogada errada que me custou o jogo. Por isso, fiquei um pouco frustrado, mas depois percebi que, se eu não tivesse feito aquilo, eu poderia ter ganhado.
Quando alguém mais experiente te ajuda no jogo, como você se sente? Isso te dá mais vontade de continuar jogando?
Guilherme:
Eu gosto bastante quando alguém me ensina, e isso me dá vontade de jogar mais. Acho bem legal, porque cada vez eu vou aprendendo mais contra outros decks.
Mateus:
Quando alguém mais experiente me ajuda, eu sinto que um dia posso ser tão bom quanto ele. Isso me motiva a treinar e jogar tanto quanto eles treinaram e jogaram, para eu conseguir melhorar e chegar ao nível deles.
O Pokémon aproximou você de alguém da sua família? Por exemplo, mãe, pai, irmão, avó ou alguém que te leva, torce por você ou monta deck com você.
Guilherme:
Eu me aproximo mais da minha mãe porque ela me ajuda bastante a pesquisar cartas comigo.
Mateus:
Sim, o Pokémon TCG fez a minha relação com a minha mãe ser muito melhor e mais próxima do que já era. Antigamente, minha mãe trabalhava o dia inteiro, voltava pra casa, fazia comida e ia dormir.
Mas agora não. Tem dias em que ela sai do trabalho, me busca, busca meu irmão, e a gente vai para a loja ou para a UG, ou então até para algum lugar jogar TCG juntos.
Na escola, você sente que o Pokémon te ajuda em alguma coisa? Pode ser leitura, matemática, concentração, memória ou até coragem para conversar com outras pessoas.
Guilherme:
Ele me ajudou bastante na matemática, porque me ensinou a chegar na resposta certa sem precisar fazer tanto cálculo, tipo quando eu jogava de e .
Mateus:
Sim, eu acho que o Pokémon TCG me ajuda na escola, porque além de trabalhar o raciocínio lógico, também envolve matemática e me ajuda a entrosar com meus amigos que também colecionam Pokémon.
O que o Pokémon TCG significa para você? Quando você pensa no jogo, qual é a primeira coisa que vem na sua cabeça?
Guilherme:
Quando alguém fala de Pokémon TCG, eu já penso nos Pokémon que eu posso usar para jogar.
Mateus:
Para mim, o Pokémon TCG é um card game que ajuda no raciocínio lógico e é muito divertido. Quando eu penso no jogo, eu penso nos meus amigos, porque o Pokémon TCG é muito mais divertido quando você joga em grupo. Jogar sozinho não é tão legal, é como brincar de pega-pega sem ter ninguém pra pegar.
Se uma criança estivesse com vergonha ou medo de começar a jogar Pokémon TCG, o que você falaria para ela? Por que você acha que vale a pena tentar?
Guilherme:
Se eu visse uma pessoa com medo ou vergonha de jogar Pokémon, eu ajudaria ela dizendo que eu também já fui assim e que não precisa ter vergonha.
Mateus:
Se uma criança estivesse com medo ou vergonha de começar a jogar Pokémon TCG, eu falaria para ela que não precisa ter medo, que ela poderia jogar e que eu ajudaria.
Porque, se você nem tentar, nunca vai descobrir como é de verdade. O Pokémon TCG é uma coisa muito interessante e me ajudou a fazer muitos amigos. Acho que esse é um ponto que ajudaria ela: conhecer pessoas novas e pessoas muito boas.
O olhar das mães: Jéssica e Michelle
Depois de ouvir as crianças, eu queria ouvir quem acompanha tudo isso de perto.
Porque tem uma parte do Pokémon TCG que a criança sente jogando, mas existe outra que aparece para quem observa de fora: a mudança no comportamento, a empolgação antes do torneio, a tristeza depois de uma derrota, a vontade de melhorar, o jeito que ela fala sobre o jogo dentro de casa.
Por isso, conversei com Jéssica e Michelle, mães que acompanham seus filhos nesse caminho, para entender o que elas enxergam no Pokémon TCG e como o jogo aparece na relação delas com as crianças.
Como o Pokémon TCG entrou na vida do seu filho? No começo, o que você achava do jogo?
Jéssica:
O interesse pelas cartinhas surgiu em 2022, quando ele conheceu Pokémon na escola. Eu gostei da ideia de ele se interessar por algo que não fosse tela e incentivei. Comentei com os tios e assim surgiram os primeiros decks de batalha.
No começo, eu achava um jogo desafiador e que poderia ocupar uma boa parte do dia dele de um jeito positivo. Reunia aprendizado, organização e cuidado, coisas que considero importantes para a vida.
Depois do interesse inicial, veio a Copa do Mundo e o álbum de figurinhas, e o Pokémon acabou ficando guardado por um tempo. Em agosto de 2023, apareceu para mim um post sobre a final do Mundial no Japão. Quando comentei com ele e ele ouviu “Japão” e “dólar” na mesma frase, virou para mim e perguntou o que precisava fazer para ir ao Japão jogar e ganhar em dólar.
Expliquei que ele teria que jogar na loja, onde eu já tinha levado ele algumas vezes, mas ele sempre recusava jogar. Aí ele decidiu: “então me leva lá no próximo torneio que eu vou jogar”. A primeira partida dele na Liga foi no dia 26 de agosto de 2023 e, desde então, ele não parou mais. Hoje ele diz que quer ser campeão mundial.
Michelle:
Tenho dois filhos: Mateus, de 11 anos, e João, de 7.
O Mateus começou nos TCGs através do Yu-Gi-Oh!, na Taberna dos Games. Mas, como na escola os colegas jogavam mais com cartas de Pokémon, acabamos migrando para o Pokémon — e foi a melhor escolha.
Depois disso, procuramos uma loja física onde ele pudesse jogar de forma mais estruturada. Foi assim que começamos na UG.
Eu sempre achei o jogo complexo e estratégico, mas também uma oportunidade de socializar e se divertir. O João vai de vez em quando às lojas, porque não gosta muito de sair de casa. E esse é um ponto em que o jogo pode ajudar bastante: na socialização.
Depois que ele começou a jogar, você percebeu alguma mudança nele? Pode ser na forma de conversar, se concentrar, lidar com outras pessoas ou tomar decisões.
Jéssica:
Foi uma mudança enorme. O Guilherme tinha muita dificuldade em socializar com crianças, e para jogar Pokémon ele precisou vencer essa barreira. Foi uma evolução muito grande no desenvolvimento social dele.
Ele sempre foi muito competitivo e movido por ranking. Quer ficar em primeiro no grupo, seja no ranking de leitura da escola, nos jogos ou nas olimpíadas escolares. Mas o Pokémon ajudou ele a levar isso para um ambiente em que precisa jogar com outras crianças, conversar, perder, aprender e tentar de novo.
Ver ele sentado no meio de tantas crianças, longe da gente, jogando, perdendo e voltando empolgado me emocionou muito, porque eu percebi que ele estava evoluindo.
Michelle:
Sociabilidade nunca foi um problema para o Mateus. Mas, em relação à concentração e à dedicação a um projeto sem desistir, vejo mudanças positivas que conseguimos trabalhar bastante com o jogo.
Estamos nessa caminhada de entender que não basta ter só talento. É preciso esforço, dedicação e treino sistemático, não só no Pokémon, mas em tudo na vida.
Meu filho mais novo, João, não se apaixonou pelo jogo da mesma forma. Ele prefere colecionar. Mesmo assim, tento trabalhar a socialização e usar o Pokémon como mais um ponto de comunicação com ele.
O Pokémon TCG aproximou vocês de alguma forma? Por exemplo, acompanhar torneios, montar deck, viajar, torcer ou conversar mais sobre algo que ele gosta.
Jéssica:
Aproximou ainda mais. Eu acompanho nos torneios, ajudo a montar deck, viajo junto, torço, sofro e ajudo na administração desse hobby.
Também aproximou o pai, que treina com ele. A gente precisou adaptar muita coisa na rotina da família, porque o Pokémon ocupa boa parte do fim de semana. Adaptamos até viagens em família para destinos e datas de torneios, e acabamos usando esses momentos para unir mais a família.
Não é fácil ser mãe de treinador Pokémon, mas é muito satisfatório.
Michelle:
Com certeza o jogo nos aproximou mais.
No início, eu só levava os meninos às lojas e ficava aguardando o fim dos semanais. Quando surgiu a oportunidade de viajar para o Regional em Goiânia, resolvi aprender um deck e me joguei na jogatina.
Não parei mais.
Hoje, meu prazer é estar nos semanais, viajar para torneios, montar decks e ouvir sempre: “mãe, você joga mal demais!”. Mas eu não ligo, porque estou com eles, juntinho, me divertindo. E é isso que importa.
Quando ele perde uma partida importante, como você percebe que ele lida com isso? Você acha que o jogo ajuda a ensinar algo sobre frustração, paciência ou tentar de novo?
Jéssica:
O que mais diferencia a forma como ele lida com a derrota não é só a importância da partida, mas como aquela partida aconteceu.
Quando a partida foi justa e honesta, ele perde e sai perguntando para pessoas que considera referência como poderia ter feito para ganhar. Ele fica frustrado, mas fica tranquilo.
Agora, quando acontece algo que ele sente que não foi honesto ou justo, quando percebe má fé do adversário, ele fica muito nervoso. Vejo nele indignação, raiva e frustração. Às vezes ele chora muito e perde o autocontrole.
Mesmo assim, acho que o jogo ensina muito sobre aprender com os próprios erros, lidar com frustração e, principalmente, com a derrota.
Michelle:
Mateus é diferenciado no quesito resiliência. Ele sabe ganhar e sabe perder. É do jogo, e ele lida muito bem com isso.
Mas já vi a decepção no olhar dele. Foi no LAIC de 2025, quando, por 1 pontinho, ele não passou para a fase 2 do torneio. Ali eu vi, nos olhinhos dele, que doeu. Ele falou: “nossa mãe, por 1 empate, faltou pouco”.
Depois conversamos sobre treinar mais, estar melhor preparado, conhecer as jogadas, conhecer o cenário do jogo e não contar com sorte no pareamento. Tentamos trabalhar a importância do treino consistente e da dedicação.
Porque, se houver derrota, tudo bem, é do jogo. Mas que ele perca sabendo que deu o melhor dele antes e durante a partida.
O João ainda precisa aprender a perder. Ele não gosta de jogar com crianças, porque imagino que, na cabecinha dele, perder para criança é “perder de verdade”. Por isso ele prefere jogar contra adultos, que seria uma “não-derrota”. Mas eu não vou obrigá-lo a jogar. Ele pode ficar tranquilo no universo das trocas e da pastinha dele.
Se outro pai ou mãe estivesse em dúvida sobre deixar o filho começar no Pokémon TCG, o que você diria para essa pessoa?
Jéssica:
Em tempos de muita exposição às telas e de uma rotina cada vez mais difícil para os pais administrarem, o Pokémon TCG pode ser um ótimo aliado. É um desafio estratégico em que as crianças fazem cálculos de matemática básica, interpretam textos e tomam decisões.
Elas também interagem com outras crianças, lidam com a derrota e praticam resiliência. Eu sou uma incentivadora ativa do Pokémon TCG para crianças. Inclusive, junto de outra mãe de jogador, criamos um grupo de apoio a pais da comunidade, para tirar dúvidas, ajudar com torneios, regras e tudo o que for necessário para que a experiência seja positiva.
Se eu pudesse dizer algo para outros pais, seria: incentive a criança a jogar Pokémon TCG. Leve para torneios, viaje junto quando puder. Vale a pena.
Michelle:
Estar com um filho é um enorme prazer, não importa a atividade. A vida está tão corrida que todos os momentos deveriam ser aproveitados.
Então, se jogue. Se desafie a estar no universo do seu filho sem medo.
Gostar de Pokémon pode ser um grande ponto de aproximação e pode render uma relação mais leve e divertida. Colecionar ou jogar, se é importante para o seu filho, pode ser importante para você também.
Esteja com ele nas lojas. Mostre interesse por algo que ele gosta. Se der, aprenda a jogar, porque a diversão é garantida.
Tiago Marins: de criança no jogo a referência em Minas Gerais
Para fechar, eu queria ouvir alguém que viveu o Pokémon TCG por outro lado.
Não como criança começando agora.
Não como mãe ou pai acompanhando de fora.
Mas como alguém que começou pequeno, continuou jogando, passou pelas fases do competitivo e hoje se tornou uma referência para muita gente em Minas Gerais.
Tiago Marins entra neste artigo porque representa uma parte importante dessa conversa: o que o jogo pode deixar em alguém depois de muitos anos.
Resultado importa, claro. Competitivo importa. Mas, quando a gente fala de referência, não é só sobre ganhar torneio. Também é sobre presença, postura, convivência, ajuda e sobre como uma pessoa mais experiente pode influenciar quem está chegando agora.

Para começar, me conta um pouco sobre você: quando você conheceu o Pokémon TCG e como o jogo entrou na sua vida?
Tiago Marins:
Pra quem não me conhece, sou Tiago Marins, tenho 24 anos, sou advogado e jogo Pokémon desde os 12 anos.
Eu já conhecia o universo Pokémon desde muito novo, vendo cartas em lojas de brinquedo e livrarias aqui de BH. Mas o jogo em si eu fui conhecer aos 12 anos. Um amigo da escola viajou para a Disney e o irmão mais novo dele trouxe dois decks.
No começo, eu só observava. Depois meu irmão começou a pedir cartas, jogar online, e eu, curioso, fui ver do que se tratava. Acabei começando a jogar junto com ele.
Com o tempo, minha coleção foi aumentando e, em 2015, entrei de fato no competitivo. Uma livraria perto da minha escola fazia campeonatos todos os sábados. Eu e meu irmão jogávamos sempre, e isso acabou chamando atenção do dono da loja, que conversou com meu pai sobre apoiar a gente em campeonatos maiores.
A partir daí, começamos a conhecer melhor a cena competitiva de Belo Horizonte, fomos à UG e passamos a frequentar mensais, regionais e campeonatos aos sábados. Foram anos jogando sem parar e, depois de adulto, também organizando campeonatos.
Quando você era criança e começou a jogar, o que o Pokémon TCG representava para você naquela época?
Tiago Marins:
No começo, era só mais um dos vários jogos que eu jogava com meu irmão. Depois virou uma rotina aos sábados e, mais tarde, uma válvula de escape para os problemas que um adolescente pode ter.
Naquela época, era algo muito especial que a gente dividia. Também era o “esporte” que praticávamos para aprender a competir, trabalhar em equipe e conviver com outras pessoas.
Você lembra de alguma derrota que te marcou no começo? O que fez você continuar jogando mesmo assim?
Tiago Marins:
Eu perdia tanto que nem consigo lembrar de uma derrota específica que tenha me marcado.
O que eu lembro mesmo são das pessoas que me ajudavam depois das derrotas. Enquanto a maioria ganhava uma partida fácil e ia embora, o Alberto e o Sonson continuavam na mesa comigo e falavam o que eu poderia ter feito melhor, o que poderia trocar no deck e que ainda tinha muito para aprender.
Teve algum momento em que você percebeu que não estava só aprendendo a jogar melhor, mas também amadurecendo como pessoa?
Tiago Marins:
Com certeza.
A turma sempre foi mais velha. Durante um bom tempo, eu e meu irmão éramos as únicas crianças ou adolescentes no meio. Todo mundo sempre respeitou isso e nos via como irmãos mais novos.
Com o tempo, eu percebi um amadurecimento emocional muito forte que atribuo ao Pokémon, principalmente em lidar com frustrações e com pessoas. Como treinávamos juntos e conversávamos bastante, esse contato com pessoas mais velhas me amadureceu como jogador e também me deu direcionamentos para amadurecer como pessoa.
Seus pais ou sua família tiveram algum papel na sua caminhada dentro do Pokémon TCG? Como esse apoio, presença ou incentivo fez diferença para você?
Tiago Marins:
Eu não estaria aqui se não fossem eles.
Todos os finais de semana, meu pai acompanhava eu e meu irmão nos campeonatos. Tinha gasto com carta, transporte, alimentação e, principalmente, tempo. Ele e minha mãe sempre apoiaram a gente, porque sabiam que era algo que a gente amava e que também ajudava no nosso desenvolvimento.
Nunca vou esquecer do meu primeiro LAIC. A data caiu no meu aniversário de 15 anos, em 24 de abril de 2017, e eu pedi aquilo como presente. Meu pai dirigiu de madrugada para que eu e meu irmão pudéssemos jogar o torneio no sábado.
Depois disso, em todos os torneios que tiveram em São Paulo até 2019, eu, meu pai, minha mãe e meu irmão estávamos lá. Sempre com ele dirigindo à noite para dar tempo de chegar. Não tenho palavras para descrever o quanto sou grato a eles.
O Pokémon TCG te ajudou a lidar melhor com pessoas diferentes de você? O que o jogo te ensinou sobre respeitar, ouvir e conviver?
Tiago Marins:
Sem dúvida alguma.
A visão que eu tenho sobre infância e adolescência é que, se não forem hobbies como o Pokémon, dificilmente os jovens vão ter um contato tão próximo com pessoas de idades, classes sociais e realidades tão diferentes.
A visão de mundo que eu tenho hoje passa muito pelas conversas que tive com pessoas diferentes de mim. A comunidade Pokémon foi um dos lugares onde eu mais tive esse contato.
Você sente que algo que aprendeu com o Pokémon TCG te ajudou na escola, no trabalho ou na profissão? Pode ser comunicação, raciocínio, responsabilidade, concentração ou confiança.
Tiago Marins:
Sim.
Eu sempre fui uma pessoa comunicativa, e o Pokémon potencializou isso. Fiz novas amizades, aprendi a me comunicar com diferentes públicos e desenvolvi melhor essa parte social.
Além disso, desenvolvi um raciocínio de resolução de problemas. Somando essas duas coisas, comunicação e resolução de problemas, são duas das competências que mais uso hoje como profissional do Direito.
Hoje, quando uma criança ou iniciante olha para você como referência, o que você sente que precisa entregar além de jogar bem?
Tiago Marins:
Posicionamento e referência.
É um pouco louco para mim, sendo quem eu sou, hoje ser referência para gerações mais novas. Quando vejo que as crianças olham para mim como exemplo, eu preciso me policiar muito nas emoções.
Ninguém está sempre 100%, mas quando vejo meus pequenos amigos da Júnior e da Sênior, eu sempre tento entregar um sorriso e uma interação de que eles possam absorver algo. Acho isso muito bonito.
Por isso, tento me portar de forma cordial, mesmo estando descontraído no meu momento de lazer. Sei da capacidade que crianças têm de imitar quem elas veem como referência. Então eu não posso ser tóxico, não posso fazer trash talk e, principalmente, tenho um dever educacional com elas.
O que eu mais tento ensinar é que vencer não é tudo e que perder não é o fim do mundo. Faço isso de forma simples: sorrindo quando estou 3-0, sorrindo quando estou 0-3, hypando quando eles estão 3-0 e acolhendo quando estão 0-3.
Quando você pensa em tudo que viveu por causa do Pokémon TCG, o que talvez não teria acontecido na sua vida se o jogo não existisse?
Tiago Marins:
Acredito que, se não fosse o Pokémon, eu talvez até hoje não teria viajado por conta própria.
Também acho que eu seria menos responsável com dinheiro, porque aprendi desde cedo que economizar 10 reais no meio da semana significava comprar 10 cartas no fim de semana.
Além disso, tem as amizades que o Pokémon me proporcionou. Se não fossem essas amizades e a quantidade de conselhos que já recebi, talvez eu estivesse em outra posição profissional, com outros relacionamentos e outras amizades.
Se você pudesse falar com a sua versão criança, aquela que estava começando no Pokémon TCG, o que você diria para ela hoje?
Tiago Marins:
Primeiro: não vende as cartas quando elas caírem, porque vai ficar tudo muito caro em 2026 e você vai querer todas elas de volta.
Tirando essa dica que poderia me aposentar hoje, eu diria para me divertir mais, não levar tão a sério ganhar ou perder e aproveitar mais os momentos.
Também diria para acolher mais pessoas, não focar só no jogo, mas também no espírito de comunidade. E, definitivamente, comprar Energia HGSS em 2015.
Conclusão
Depois de ouvir o Guilherme, o Mateus, a Jéssica, a Michelle e o Tiago, eu fico com a sensação de que o Pokémon TCG aparece de formas diferentes na vida de cada um.
Para o Guilherme, aparece na vontade de melhorar, de entender a jogada, de perguntar depois da derrota e tentar fazer diferente na próxima.
Para o Mateus, aparece muito nas pessoas. Nos amigos que ele talvez não conheceria fora do jogo, na relação com a mãe, na diversão de jogar em grupo e na coragem de continuar mesmo quando dá vergonha ou medo de começar.
Para a Jéssica e a Michelle, aparece de outro jeito. Elas veem o jogo pela rotina, pela mudança dos filhos, pelos torneios, pelas viagens, pelas conversas e também pelos momentos difíceis. Elas não estão só olhando uma partida acontecer. Elas estão vendo os filhos crescerem dentro de um ambiente que passou a fazer parte da família.
E o Tiago mostra uma outra ponta dessa história. Ele começou criança, perdeu muito, foi ajudado por gente mais experiente, teve apoio da família e hoje entende que ser referência não é só jogar bem. É também saber como agir perto de quem está começando.
Acho que é isso que eu queria mostrar com este texto.
Pokémon TCG não vai ser a mesma coisa para todo mundo. Para alguns, vai ser coleção. Para outros, competição. Para outros, um hobby de fim de semana.
Mas, quando existe um ambiente bom em volta, o jogo pode virar um lugar onde a criança aprende a conversar, a perder, a pedir ajuda, a pensar melhor e a se sentir parte de alguma coisa.
E talvez os pais não precisem entender todas as cartas para participar disso.
Às vezes, só estar junto já muda bastante.
Referências
[1] TURKAY, Selen; ADINOLF, Sonam; TIRTHALI, Devayani. Collectible Card Games as Learning Tools. Procedia - Social and Behavioral Sciences, 2012. O artigo discute como jogos de cartas colecionáveis podem estimular criatividade, cognição e raciocínio lógico, além de ajudar jogadores a sintetizar conhecimento e desenvolver habilidades difíceis de ensinar em sala de aula. Disponível em: ScienceDirect.
[2] ALOTAIBI, Mesfer S. Game-based learning in early childhood education: a systematic review and meta-analysis. Frontiers in Psychology, 2024. A revisão aponta efeitos positivos da aprendizagem baseada em jogos em desenvolvimento cognitivo, social, emocional, motivação e engajamento na educação infantil. Disponível em: Frontiers in Psychology.
[3] DELL’ANGELA, Linda et al. Board Games on Emotional Competences for School-Age Children. Games for Health Journal, 2020. O estudo discute jogos de tabuleiro voltados a competências emocionais em crianças em idade escolar e a experiência social/motivacional durante o jogo. Disponível em: PubMed.
