Fala, galera. É o Wallysson aqui, e tô muito feliz de contar que o James Kowalski, também conhecido como Alloutblitzle, campeão do NAIC desse ano, topou dar uma entrevista pra gente. Ter um cara desse nível parando pra responder as nossas perguntas significa muito. Eu tentei puxar coisas que vão além do jogo, porque é isso que eu mais curto nesse tipo de papo: entender como funciona a cabeça de um top player de verdade, o que ele sente numa derrota que dói, o que segura ele quando o título não vem.
Se você não acompanha ele de perto, vou resumir. Muita gente, eu incluso, segue o James há anos, desde os torneios online do TCG Live, onde ele já jogava muito. É um dos jogadores mais esforçados que eu conheço, do tipo que constrói o resultado no grind, partida atrás de partida. Esse ano ele coroou tudo isso ganhando o NAIC com um Box.
Quem é da época lembra que na primeira versão da TCMG, aquela em que a gente perdeu o domínio, já tínhamos entrevistado lendas como o Ryan Sabelhaus e o Nick Robinson, campeão nacional americano. Sempre amei fazer isso. Então se vocês curtirem, quem sabe a gente continua e traz mais nomes grandes do mundo todo pra conversar com a gente aqui.
Espero que vocês curtam. Bora pra entrevista.

1. Pra começar, me conta um pouco sobre você e sua história com o Pokémon: como o TCG entrou na sua vida e o que te puxou pro competitivo?
Comecei a jogar o Pokémon TCG em 2015, depois que eu e meu irmão mais velho ganhamos umas cartas e meu pai quis que a gente fizesse alguma coisa com elas. Meu primeiro torneio foi um prerelease de Legendary Treasures. Sempre fui uma pessoa muito competitiva, e mesmo sendo péssimo quando comecei, eu amava tanto o jogo que não conseguia parar de jogar.
2. Muita gente te acompanha desde que você começou a transmitir os torneios online, onde já ia muito bem. O quanto jogar no TCG Live te formou como jogador, em especial a ladder?
No começo eu não era muito conectado com os outros jogadores, então grindar a ladder era a melhor forma de achar partida contra gente boa sem precisar estar num grupo de treino. Sem o TCG Live eu teria muito menos jogos de qualidade chegando em cada torneio, e tenho certeza de que me sentiria bem menos confiante no meu deck e no meu jogo.
3. A gente sempre te acompanhou de longe e sempre te viu como alguém muito esforçado. Aqui no Brasil a gente ama futebol, e tem uma frase: Messi é talento, Cristiano Ronaldo é esforço. Você acha que ralar e treinar muito faz diferença de verdade no Pokémon TCG?
Pokémon não é tipo esporte, onde algumas pessoas são simplesmente mais altas, mais rápidas ou mais fortes. Qualquer um tem capacidade de ser um top player de Pokémon TCG com tempo e dedicação suficientes. A maioria dos melhores jogadores do jogo vem grindando há anos e tem muita experiência acumulada.
4. Nesses quase 10 anos, teve algum momento em que você duvidou de si mesmo, ou achou que um título grande talvez não fosse acontecer pra você? O que te fez continuar mesmo assim?
Algumas vezes. Saindo da COVID eu não tinha condição de viajar, então só grindava torneio online. Teve um formato em que eu tinha um Arceus Gyarados quebrado que eu mesmo montei, mas não consegui ir em nenhum torneio grande. Esse deck depois fez 2º lugar num regional naquele formato. Eu sabia que era bom o suficiente, mas tinha medo de nunca ter a chance de mostrar isso. Essa temporada eu tive um começo bem ruim, com vários Top 256. Fiquei preocupado de talvez nem conseguir meu convite pro mundial. Acho que nas duas situações, se eu não amasse tanto o jogo ou não tivesse amigos pra me apoiar, talvez eu não tivesse continuado.
5. Qual foi a derrota que mais doeu na sua carreira, e o que ela te ensinou?
Round 9 do mundial do ano passado, contra o Nico Alabas. Minha chave em 5-1-2 era quase toda de vitória garantida, e ganhando aquela rodada eu provavelmente passava pro top cut do mundial. Naquelas partidas eu tomei brick duplo, o que doeu muito, mas eu sabia que se tivesse jogado melhor na minha derrota e nos meus empates eu não estaria naquela situação, e talvez tivesse tido uma chance de ser campeão mundial.
6. Nas suas streams, você sempre mudava muitas cartas de um campeonato pro outro, mesmo mantendo o mesmo arquétipo. Como você trabalha as iterações das suas listas?
Muita tentativa e erro. Montar deck é basicamente identificar problemas e tentar resolver eles da forma mais eficiente possível. Normalmente, depois de jogar muita partida, eu tento pensar por que não estou ganhando tanto quanto acho que poderia, e tento pensar em cartas pra corrigir esses problemas.

7. Como foi a sua preparação pra esse NAIC? Teve algo diferente dessa vez que você sente que pesou no resultado?
Joguei bem menos ladder do que o normal porque peguei um monte de bug que deixava o jogo frustrante. Eu não sentia que o Clefairy era uma ótima escolha, então ficava assistindo meus amigos jogarem outros decks que não o Clefairy, mas nada me agradava. Por sorte, minha amiga Emma Hagen fez uma corrida ótima com o deck uma semana antes e tinha umas perspectivas novas de como jogar os matchups, e isso me convenceu a usar ele.
8. Seu arquétipo de coração sempre pareceu ser o controle. Depois você passou a jogar Raging Bolt ex, e no NAIC você ganhou com um tipo de Clefairy Box, um deck bem mais agressivo. Como foi confiar num estilo diferente do que você mais gosta de jogar?
Eu sempre gosto do deck mais consistente do formato, seja qual for. Por um tempo foi o Pidgeot, depois o Bolt, e agora o Clefairy. Sinto que sou muito bom em administrar o board, então se me dão a chance de jogar a partida, eu tenho boa chance de ganhar.
9. Sua lista era um Clefairy Box um pouco diferente, mais consistente, com contagem de Pokémon mais alta. Por que essas escolhas, tipo subir Fezandipiti, Latias e companhia?
Eu sentia que os outros decks de basic box com mais techs se espalhavam demais pra matchups que não eram muito relevantes. As contagens grossas de Pokémon garantem que você ache as coisas importantes cedo sem jogar Cyrano, o que te deixa mais agressivo. Gostei do quão bom o Dusk Ball era pra montar o jogo e pra se recuperar de disrupção, e ele fica ainda melhor com as contagens mais grossas de Pokémon.
10. Você começou muito bem. Como estava a sua cabeça durante o torneio? Era pensar jogo a jogo? E quando passou pro top cut, como estava a sua confiança?
Fiquei apavorado durante quase toda a corrida achando que ia inevitavelmente cair contra Crustle e ter a corrida descarrilada. Eu sentia que, enquanto eu não sentasse na frente do caranguejo, eu ganhava, e por sorte, contra todas as probabilidades, eu fui desviando do Crustle. Indo pro top cut, vi que estava na chave do Tord. Não só é um matchup horrível pra mim, mas é o Tord, ele não vai errar. Por sorte pra mim, ele perdeu, e eu acabei na chave do Dragapult.
11. Conta um pouco da sua final. Você perdeu a primeira partida: o que passou por dentro de você naquele momento?
Joguei bem mal, então fiquei frustrado comigo mesmo, mas sabia que o matchup era favorável, então não fiquei muito preocupado.
12. A segunda partida foi pra cada lado, nível altíssimo, um erro mudava tudo. Como você segurou a concentração ali? E na terceira, quando o oponente não buscou o terceiro Dreepy, o que passou na sua cabeça?
Mesmo sendo um momento de tanta pressão, eu nunca fico nervoso de verdade jogando Pokémon. Eu tinha meu plano e meu prize map, e por sorte tinha as cartas pra executar. Levei um minuto pra processar que ele pegou um Budew no lugar de um Dreepy, mas quando a ficha caiu, eu sabia que ia ganhar de qualquer jeito.
13. Quando caiu o último prize e você viu que era campeão, qual foi a primeira coisa que passou na sua cabeça, pra quem você olhou ou ligou primeiro? E agora, com uns dias passados, a ficha já caiu ou ainda parece surreal acordar como número 1 de um evento desse tamanho?
É bem difícil de descrever, mas eu coloquei tanto tempo nesse jogo e tantas vezes fiquei perto sem conseguir, que quando finalmente ganhei fiquei tomado de felicidade. Ver todos os meus amigos e minha família na plateia gritando meu nome depois que eu ganhei me fez sentir que estava sonhando. Não sei se a ficha vai cair de verdade algum dia, mas com certeza é uma sensação muito boa ganhar um evento desse tamanho.
14. Sua comunidade te respeita muito. Tem gente falando coisa do tipo "nós ganhamos", como se o título fosse de todo mundo. Você tem noção de quanta gente a sua vitória deixou feliz junto com você?
Eu me esforço ao máximo pra sempre ser uma força positiva na comunidade, então ver as pessoas me apoiando por isso foi extremamente recompensador.
